Beijo-te
Tenho na voz um pássaro
de bico delicado, meu.
Tropeço nos teus olhos
É amor: pouca frase
Para sentido sobrar
Dum facto quase fase.
Amo: palavra foice
Divisora do que resta
Indiferença e coice!
Morrer de amor: banal
Corta-se o beijo do dia
É noite: horizontal ritual.
Romã rosa rosmaninho
Aroma da cor do vinho
Amor ao longe: Espinho!
indiferente às miragens, constrangimentos eloquentes, ou negações realistas ouso pensar...
indiferente, aos degraus que os meus passos refreiam, sou o eco dos coriscos noctâmbulos que enfeitam as noites de vigília…
no inicio um caminho cruzando o horizonte em colisão do ocaso, já em viagem, sou o reverso do verso, o pensamento simétrico que em ti desponta...
sentindo na pele e nas mãos o íman da tua visão penetrante, abstraio-me do meu eu e desnudo-me em ti...
indiferente, ao embaio da incerteza, sonho a palavra eleita, as formas cuidadas, a fresca consistência da verdade...da humana verdade…
Dia de S. Valentim.
Em cartaz uma dança de outros tempos. Romântica.
Comprei todos os bilhetes de entrada. Só para ti.
Dois de saída, que guardei, pelo ponto vazio.
Feito à medida. Entrei pela porta do cavalo. Dois bilhetes bem juntinhos na mão bem fechada.
Olhei-me no palco a primeira vez . E a pequena plateia ficou grande e vazia.
Muito a medo te esperava e tu não vinhas.
O estômago apertava e o coração subia, tocando o céu da boca.
De longe a melodia infiltrava-se no ar, na média luz, nos nervos à flor da pele.
E os tendões entorpecidos aqueciam-se no compasso a convidar à dança.
Mas tu não vinhas. E os meus pés pediam para correr. Correr, saltar para ti.
Juntando os meus passos aos teus abraços.
Mas a dança do amor requer um par, como um beijo não serve sem outra boca.
Num lanço, atravessei o estrado de olhos fechados.
A meio agarrei tua mão e rodei sobre mim e sobre nós. Pairámos suspensos num só coração.
O teu bateu descompassado. O meu esperou.
Fomos tudo, no tempo parado. O ar que respirámos, a água que bebemos nos beijos que demos.
Nas mãos nos soltámos, descobrimos nossos lados e segredos. Tudo ficou claro.
E a dança brotou num círculo de formas perfeitas e movimento certo.
Uma luz no início do caminho traçado mostrou a saída no palco apagado.
E a dança alastrou-se nos dias…
Dois bilhetes bem juntos, perdidos sob o pano caído… que sobe e desce sem cessar às palmas do tempo que corre…
Meu anjo olha: o alto voar
De uma gaivota no céu,
Rasgando o vento a pairar
Perseguindo um sonho teu.
Sentes as asas vibrar?
Sou eu, sou eu, sou eu!
Meu anjo ouve: o soluçar
Das ondas na areia e no céu,
Feitas em espuma ao chorar
Tingindo as águas com um véu.
Escuta os búzios a clamar
Sou eu, sou eu, sou eu!
Meu anjo sente: junto ao mar
A brisa em sal pelo rosto teu,
São como lágrimas a ancorar
Nos teus olhos o amor meu.
Deixa a onda te abraçar
Sou eu, sou eu, sou eu!
Quero umas asas de muitas cores,
Com muita urgência quero partir.
Esperam-me campos com tantas flores,
Que só as asas de várias cores
Me vão servir
Quero essas asas feitas de penas
De nuvens brancas e cores do céu.
Quero-as etéreas de cores serenas
Dos tons da paz como açucenas
Para cobrir o mundo meu.
Quero que as asas vibrem no ar:
Me levem alto, longe demais,
Ao firmamento e a um não lugar,
Àquele ponto onde a flutuar,
Crescem altas catedrais.
Quero partir, agora, já,
Antes que colham todas as flores.
Eu quero ir enquanto há
Nuvens brancas cá e lá
Que transportam sonhadores.
Seres cinzentos à janela
Passam tão despercebidos
Nos instantes da aguarela
De momentos comedidos
Que passam antes da tela
Ter tempo de os ver vertidos.
Desconhecidos à margem
Do rio que os vê passar
São de ninguém a coragem
Que à foz os faz chegar.
Sobe à tona na passagem
A água turva a chamar.
E as tintas da cor da vida
Murcham-se antes da visão
Do que foram na medida
Daquilo que hoje não são.
Talvez na abstracção sentida
Bem fundo se encontrarão.
A Lua parou a noite abrandou
O mar acalmou na areia quente
O poeta a correr olhou e estacou
A água o beijou casualmente…
.
Sentou-se o poeta no brilho da Lua
E esta sorrindo seus olhos tocou
Dormiu ao relento no meio da rua
Ao colo do sonho que a noite velou.
.
E nesse sonhar andou e passou
À porta da vida no tempo esquecida
Passou parou mas não a encontrou
Perdeu–se no passo da noite traída.
.
Por isso o poeta anda sem destino
Em largos passos saltos miudinhos
Coração solto feito bailarino
Olhos de chuva aos bocadinhos.
.
E se um momento ausente se sente
Às águas se entrega urgentemente…
Condenso cá dentro vozes tão antigas
Mordendo silêncios de chuvas caladas
Que meus olhos sós se ferem de brigas
Citados das novas de paz embargadas.
.
Embargo de paz vingança de guerra
Desertos de vida sobrantes do fogo
Lançado nos mares cruéis desta terra
Queimada à sorte num tapete em jogo.
.
Estropiadas gentes procuram buracos
Comboios de vento para se acalmar
Uns levam consigo crianças em cacos
Outros têm nas chagas larvas a criar.
.
E não há chuva, não há sol, e nada há
Que amaine a dor da terra ressequida
Que cure as feridas do mundo e quiçá
Nos traga a todos da vida esquecida.
. Beijo-te
. Verdade
. MEU ANJO
. CINZAS
. INFERNO
. PREVISÃO
. Dicionário de rimas
. Rimas